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Capela do Nosso Senhor do Bonfim

A Capela Nosso Senhor do Bonfim

Ano de 1851. No dia 27 de abril, tomou posse da Paróquia de São José o Padre Macário César de Alexandria e Souza. Originário da Bahia, teve a iniciativa da devoção ao Senhor do Bonfim em nossa paróquia, com a ereção de uma capela em seu louvor. A ideia encontrou um eco com outros devotos, ou pessoas que já sabiam da existência da grandiosa devoção e festividade na cidade do Salvador, que em até dias atuais é celebrada pelos baianos.

Por certo muito dos moradores de São José já conheciam a devoção ao Senhor do Bonfim, visto que muitas famílias vindas do nordeste brasileiro aprovaram em São José, ainda existindo nos dias de hoje descendentes morando entre nós.

Aceita a idéia, no dia 29 de junho daquele ano, foram iniciadas as obras da capela, erguida com esmolas e ofertas da população. Pedras e madeiramento para sua construção foram doados por José Antônio de PInho, concorrendo o Padre Macário com as despesas de mão de obra, cal e esmolas por ele pedida. José Antônio de Pinho foi um influente comerciante e político josefense. Foi  o proprietário do belo sobrado  existente ao lado da igreja matriz no centro histórico, atualmente a Fundação de Cultura de São José tem sua sede.

Enquanto as obras seguiam, o Padre Macário encomendou na Bahia uma imagem, réplica daquela que se venera em sua basílica na capital baiana.

No dia 19 de março de 1852, justamente no dia consagrado ao padroeiro da paróquia e do município, a imagem chegou, ficando depositada na Igreja Matriz.

As obras de erguimento da capela seguiram rápidas, pois ao final do ano de 1852, já estava em condições de uso. Ao entardecer do dia 26 de dezembro daquele ano, sem muito aparato, a imagem do Senhor do Bonfim foi levada da Matriz para sua capela, e o Padre Macário designou o primeiro dia do ano seguinte para a primeira solene procissão.

Ganhou o povo josefense um belo presente. Bem perto da sua grandiosa matriz, surgiu uma pequena e bela igreja. Nas palavras do notável historiador catarinense Oswaldo Rodrigues Cabral, uma "verdadeira relíquia histórica, no mais puro estilo colonial português, como poucas outras haverá, certamente nas fundações litorâneas de Santa Catarina, é a Igreja do Senhor do Bonfim, em São José".

Concluida, esta apresentava-se como uma verdadeira jóia de arquitetura, minúscula, embora, com suas linhas sóbrias, com as suas sineiras, os seus óculos, os seus beirados, o seu galo. Interiormente o acabamento é impecável. Um arco romano dividia a arca do presbitério e o seu pulpito de madeira tinha entrada pela sacristia. A imagem do Senhor foi colocada em custosa cruz de jacarandá preto, obra do mestre carpinteiro Luiz Henriques dos Santos Souza, ornada de lavores de prata, rosetas em relevo, trabalho do mestre ourives Juca Porto (José da Silva Porto) - trabalhos que honram a memória deste exímios artistas, ambos josefenses da velha cepa.

Padre Macário Cezar enamorou-se da sua obra. E para tê-la sempre em frente aos seus olhos, madou erigir em frente a casa paroquial - e nela por muitos anos residiu, sempre cheio de amor pela pequenina capela. Ainda hoje os que demoram a sua atenção sobre a secular capela, admiram as linhas puras do seu estilo.

Mas, interiormente, já não encontrarão o púlpito. A casa paroquial desapareceu por abandono, ao final do século XIX.

"No local onde foi construida, existia uma pequena casa,  que servia de depósito de cadáveres que não podiam ser enterrados, por chegarem tarde, fora da hora marcada para inumação, que era feita no dia seguinte. Este depósito fora construido em 03 de fevereiro de 1846, por meio de esmola". O local escolhido para eregir a capela, no cume de uma colina que domina parte da cidade de São José, oferece aos que ali chegam, a oportunidade de apreciar um belissimo e inesquecivel panorama, não só da cidade como da baia sul.

Na noite de 31 de dezembro de 1852, a imagem, encerrada em biombo, foi translada para a Matriz.  No dia seguinte ocorreu a procissão de retorno à capela. O padre Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva, o Arcipreste Paiva, na chegada da procissão na capela, pronunciou sermão. Em outras ocasiões voltou ele a São José para repetir este ato, comprovado por velhas fotografias que paralizaram no tempo este fato, confirmado pela tradição mantida pelas conversas familiares.

"No princípio, a translação noturna era feita à luz de archotes e grandes fogueiras, ardiam desde o morro da capela até a porta da matriz. Mais tarde foram abolidos, substituidos por lanternas e círios. Um guião de ceda vermelha franjado de ouro, ia na frente da procissão, empunhado por um devoto da Irmandade do Santíssimo Sacramento, e a procissão de regresso seguia pelo lado direito da praça rumo a capela.  Mais tarde, em 1856, com a abertura da rua Xavier Câmara, ligando-se a que fica em frente ao Instituto São José, o trajeto foi por ali, tomando o rumo da rua geral até chegar na capela. 

A venerada imagem do Senhor do Bonfim é uma belissima escultura em madeira de cedro, no tamanho natural de um homem, proporção que lhe dá beleza singular e impressionante. A sua cabeça com os olhos semi-cerrados, deixa-se cair para o lado direito, lado em que se vê a chaga aberta pela lança do soldado romano. Carregada pelos penitentes, onde passava era apresentada pelas famílias, que enfeitavam em frente de suas residências com colchas e toalhas colocadas nas janelas e flores despetaladas no piso da rua. 

Em época mais remota, sob o pálio, o páraco empunhava a relíquia do ''Santo Lenho''. O pálio era conduzido pelas pricipais autoridades, para isso convidadas, indicando prestígio e distinção.

O periódico "O Correio Catharinense", que se publicava na capital Catarinense, em sua edição de 11 de janeiro de 1854, relatou como ocorreu a segunda procissão, ocorrida dias antes. ''A grande concorrência e regozijo que se acaba de manifestar nos habitantes da vila de São José, por ocasião da festividade do Senhor Jesus do Bonfim, nos parece um fato de tanta magnitude, que não se pode deixar passar despercebido. A  um ano que concluia a nova Capela edificada por inspiração e deligência do revmo. vigário o Sr. Pe. Macário, cujo zelo e atividade pelo serviço da igreja se não lhe pode negar, teve lugar pela primeira vez a festa daquela imagem que é o dito senhor que mandou  vir da Bahia, seu país natal, não tendo então como agora rendimento algum para acudir as despesas que para semelhantes atos se fazem precisas; com tudo, houve já nessa ocasião Missa cantada pelo mesmo senhor vigário e sermão pelo revmo. Padre Joaquim Gomes de Oveira Paiva, por convite do seu colega, e já então não foi pequena a concurrência de povo, tanto da Freguesia como de fora. Louvores pois sejam dados a revmo. Sr. Macário, insttuidor daquela devoção, e as pessoas que o coadjuvara,. para que fervosos continuem a dar provas dos puros sentimentos, que os animam para realçar a grandesa de nosso Redentor, e desde já lhe prodigalizamos os nossos emboras pelas deligências que tem empregado na criação da nova Igreja com a invocação de Santo Amaro na povoação do Cubatão.

Notas avulsas sobre a capela, encontradas em várias fontes. A planta da capela foi idealizada pelo padre Macário, não se sabendo o nome de seu autor. A sua construção durou um ano e meio. O calçamento. O calçamento do adro da capela  contituido de 32 lajes planas, retangulares de pedra vermelha, doadas pelo coronel Gaspar Xavier Neves, encontra-se ainda hoje em perfeito estado de conservação. A cruz da venerada Imagem foi feita pelo hábil artista Luiz Henrique dos Santos Souza, de tradiocional família josefense. Dele temos ainda, os trabalhos de madeira dos altares da Igreja Matriz. A prataria que se vê na referida cruz, foi toda lavrada,  vurilada e outras peças fundidas (rosetas e etc), pelo artífice josefense José da Silva, autor também do pequeno lampadário de prata existente na capela, esta minúscula cópia da que existiu na igreja matriz, também trabalho desse atíficie e mandada fazer pelo coronel Gaspar Xavier Neves. Padre Macário mandou eregir uma "sala de promessas" quando começaram a aparecer as promessas dos penitentes.

No dia 18 de junho de 1985, pelas cinco horas da tarde, a capela do Senhor do Bonfim recebeu a visita do Bispo Dom José de Camargo Barros. Ali revestiu as suas insígnias, para entrar triunfalmente na cidade josefense. Este fato foi por ocasião de sua primeira visita pastoral em terras catarinenses. Dom José de Camargo Barros era bispo de Curitiba, diocese que abrangia os estados do Paraná e Santa Catarina com suas paróquias. Foi o primeiro bispo a visitá-la. No relatório de sua atividade nesses dias, deixou precisas informações sbre todas as igrejas de São José. 

Com respeito a capela do Senhor do Bonfim, registrou: "A Igreja do Bonfim tem três altares, púlpito insignificante, côro, pequena torre e sachristia; está forrada e assoalhada. No altar-mór, que é bem regular, está uma bellíssima imagem de madeira de Nosso Senhor Crucificado, de tamanho natural, tendo aos lados uma boa imagem de Sao José e um  do Senhor Bom Jesus da Prisão. O altar do lado da Epistola é consagrado a S. Sebastião, cuja imagem grande, perfeita, é também de madeira. O altar do lado dos três altares tem castiçaes, pedra d'ara boa, sacras e as toalhas conforme as prescripções de direito. PAramentos poucos e insignificantes".

Os encarregados da capela em diversas épocas foram Joaquim Pereira da Silva, José Antônio de Pinho, João Pedro de Espíndola, Jesuíno do Vale, Manoel Cesário Demaria, João Gualberto da Silva e muitos outros que não ficou memória. Nos anos de 1940 e 1950 a zeladora foi Dona Cristina.

 

Foto de Dom José de Camargo Barros

Em 1913, o pároco Frei Domingos Schmitz, OFM, ergueu junto a ela uma construção que abrigou até o ano de 1923, o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, sob a responsabilidade das Irmãs da Divina Providência. Foi por esta ocasião que algumas transformções ocorrenram na capela, descaracterizando, deturpando mesmo o  seu belo estilo luso-brasileiro. O rústico púlpito foi coberto com um tapume de tijolos, bem como o óculo da frontaria. Nas comemorações do primeiro centenário da capela, em 1952, o óculo foi reaberto e na oportunidade a capela foi pintada para estas memoráveis festividades.

Em 1972, a necessidade obrigou a capela entrar em obras. Infiltrações de águas da chuva e de cupins ao madeiramento fizeram grandes estragos. A parede do lado sul estava fora de prumo já com pequenas rachaduras. Uma comissão elaborou um plano com a colaboração da comunidade e as obras foram iniciadas em 15 de maio de 1972, por uma equipe de operários comandados pelo mestre de obras Leão Junckes, o mesmo que procedeu a restauração da igreja matriz em 1968/1969.

Lembrando que a igreja do Senhor do Bonfim está localizada no alto de uma colina, recebendo diretamente ventos do mar, trazendo umidade e maresia, muito rapidamente se altera a estrutura. Nos dias atuais, mais uma vez a situação ficou agravada. Mediante convênio com a Prefeitura Municipal de São José, pela Fundação Municipal de Cultura e Turismo e a Paróquia de São José, a Empresa Martins Beltrame com seus operários iniciaram seus trabalhos em 03 de setembro de 2014. Verificação da cobertura com colocação de rampa para cadeirantes e outros serviços deram um novo aspecto a secular capela. O galo da torre enferrujado pela maresia, desapareceu em quase a sua totalidade. O artista plástico Plínio Verani, desenhou um novo galo, ficando encarregado de sua confecção Osni Câmara da Silva Filho, que também procedeu a restauração da Cruz.

Todos este strabalhos foram finalizados no dia 17 de dezembro de 2014. Na noite deste mesmo dia, com uma missa presidida pelo arcebispo metropolitano de Florianópolis, Do Wilson Tadeu Jünck, com a presença do paroco de São José, José da Silva Paiva, o vigário paroquial Wanderlei Calça, a Prefeita de São José Adeliana Dal Pont, o Superintendente da Fundação de Cultura de São José, Carlos Eduardo de Souza Martins, autoridades diversas e garnde número de paroquianos, foi a secular igraja entregue a comunidade.

Para a confeção destas Notas foram consultadas, principalmente, o Livreto Capela do Bonfim - Primeiro Centenário - 1853 - 1953, de autoria do historiador Josefense Álvaro Tolentino de Souza e o número 2 de março de 1950, editado pela Associação Filatética de Santa Catarina, edição especial comemorativa do bicentenário de São José, além do livro Tombo da Paróquia de São José e notícias publicadas pela imprensa.

Texto: Osni Machado.
Imagens: Intenet